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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Sinopse das Obra perturbadora I e II

Sinopse do livro Obra perturbadora
“Sempre do ponto de vista de crianças, suas protagonistas, os contos da Obra Perturbadora pretendem mexer com seu leitor, trazendo experiências de leitura com finais abertos e incongruências propositais, que podem até parecer em primeiro momento uma falha da autora, porém, o resultado no leitor é, em geral, atingido e previsto durante a produção deles.
Prepare-se para sentir estranheza, insegurança, suspense, violência, e principalmente a expectativa que traz a melhor sensação do suspense. A autora busca em alguns contos contextualizar o seu leitor para depois apresentar um desfecho incongruente ou violento, ou de uma forma muito distinta não contextualiza o leitor e dá toda a situação ocorrida e o que se espera é que a experiência do leitor trabalhe com as questões que surgem, de forma a trazer a tona a própria personalidade do leitor, seja instigando-o a buscar respostas que não terá, a se revoltar com a falta de informação desejada ou a lidar com o prazer da sensação atingida na leitura. Que tipo de leitor é você? Um detetive, que quanto mais instigado mais busca saber? Um frustrado que para a leitura por não aceitar o jogo da autora? Um imaginativo que complementa as histórias com as possibilidades e se delicia seja com o contexto que lhe é cobrado ou com o desfecho que é incongruente?
Descubra-se lendo a Obra Perturbadora, contos curtos e rápido de terror e suspense que trazem desde os mais clássicos terrores psicológicos até os mais modernos, influenciados pelo Edgar Alan Poe, Stephen King, Lovercraft, entre outro e o cinema do século XX e XXI.”
http://inquietacoesdelauralucy.blogspot.com.br/search/label/Obra%20Perturbadora


Sinopse do livro Obra perturbadora II
“Sempre do ponto de vista de adultos sobre as crianças, os contos da Obra Perturbadora II pretendem mexer com seu leitor, trazendo experiências de leitura com finais abertos e incongruências propositais, que podem até parecer em primeiro momento uma falha da autora, porém, o resultado no leitor é, em geral, atingido e previsto durante a produção deles.
Prepare-se para sentir estranheza, insegurança, suspense, violência, e principalmente a expectativa que traz a melhor sensação do suspense. A autora busca em alguns contos contextualizar o seu leitor para depois apresentar um desfecho incongruente ou violento, ou de uma forma muito distinta não contextualiza o leitor e dá toda a situação ocorrida e o que se espera é que a experiência do leitor trabalhe com as questões que surgem, de forma a trazer a tona a própria personalidade do leitor, seja instigando-o a buscar respostas que não terá, a se revoltar com a falta de informação desejada ou a lidar com o prazer da sensação atingida na leitura. Que tipo de leitor é você? Um detetive, que quanto mais instigado mais busca saber? Um frustrado que para a leitura por não aceitar o jogo da autora? Um imaginativo que complementa as histórias com as possibilidades e se delicia seja com o contexto que lhe é cobrado ou com o desfecho que é incongruente?
Descubra-se lendo a Obra PerturbadoraII, contos curtos e rápido de terror e suspense que trazem desde os mais clássicos terrores psicológicos até os mais modernos, influenciados pelo Edgar Alan Poe, Stephen King, Lovercraft, entre outro e o cinema do século XX e XXI.”

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Duplos

23/1/2017

Suelen estava com muitas sacolas, estavam saindo do shopping, depois de uma compra de roupas para a próxima estação, e então dirigiu-se para seu filho:
- Milton, pega a chave aqui na minha bolsa e abra o porta-malas, por favor.
O garoto de dez anos ficou todo feliz, adorava assumir o controle, pegou a chave com altivez e Miranda retrucou:
- Por que ele, mãe? Deixa eu!
- Da próxima vez. – Suelen se repreendeu por dentro, depois de lembrar que era a próxima vez da última vez... porém, manteve a sua postura. Miranda não gostou e chorou, como sempre.
O carro era pequeno, revelando uma família de classe baixa, o shopping era popular, confirmando essa característica. Depois de colocar tudo no carro eles sentaram dentro do carro, as crianças atrás, como era de se esperar.
No caminho o telefone de Suelen tocou, era o marido dela, Rubens, e quem atendeu ao telefone foi Milton, fazendo, mais uma vez, Miranda chorar.
- O pai perguntou se vamos demorar, pois ele está indo para casa.
- Diga que mais uns treze minutos.
- Ele falou que tudo bem, que nós chegaremos juntos. Falou que te ama, que ama a Miranda e a mim.
- Manda outro para ele.
- Outro o que? Ah, ele desligou.
Era fim de semana, e ela não trabalhava, mas o Marido sim, por isso, muitas vezes ela aproveitava esse tempo para sair com as crianças e ver um filme, pois Rubens não gostava de cinema. Em casa a cabeça de Suelen a levava a pensar sobre a cozinha e o que preenchia a sua despensa, para preparar o jantar de todos, ela conseguia ver a porta de entrada entreaberta, e dela era possível enxergar a mesa o meio do cômodo, a geladeira à esquerda da pia, e a direita o fogão, que em referência a porta ficava à esquerda no Cômodo e onde havia uma enorme janela com cortinas brancas, que davam trabalho para lavar e tirar as manchas de gordura. À direita da porta estavam dispostos armários e um balcão, do outro lado do cômodo estava a porta, no meio da parede, uma porta de duas folhas branca como as paredes. Uma casa comum, mas distinta por ser deles, quitada a pouco tempo na Caixa Econômica Federal.
Depois de entrar pela porta de folha dupla havia a sala de estar, com uma escada à esquerda, que levava para os quartos no andar de cima, onde havia um ventilador de teto no topo, e os quartos tinham as portas frente uma a outra, o quarto da menina ante ao quarto do casal, e no corredor havia o quarto do menino, no fundo, com o banheiro comum.
Chegando em casa, Rubens estacionava o carro, e então esperou pela esposa e filhos na garagem, fecharam o portão, Ele cumprimentou as crianças com abraços e rodopios, e beijou a mulher na boca, antes de pegarem as sacolas de compras:
- Pelo jeito vocês se divertiram, não é?
- Sim, papai! – Disse Miranda.
- O filme foi muito legal, pai!
Eles entraram e viram Rubens e Suelen na pia preparando refeições, e as crianças à estavam mesa desenhando. Passaram para a sala, separaram as compras e cada um levou o que era seu para o seu quarto, de forma que ficaram em seus quartos e foram dormir:
- Pai, a gente pode dormir com vocês? – Miranda perguntou, choramingando.
- Venham, podem vir, por que estão assim? – Questionou o pai.
- A gente está com medo... – começou a Miranda.
- Diga, o que foi? – Insistiu Suelen.
- A gente está com medo... com medo da gente, de nós, pois estamos lá embaixo.
Os pais abraçaram as crianças e se entreolharam, nos seus olhos havia um medo imenso, indescritível, tão duro quanto agudo:
- Quando entramos em casa, eu vi a gente na cozinha, eu e você estávamos cozinhando... – disse Suelen com a voz baixa e sumindo.
- E as crianças, as cri ... as crianças... elas estavam desenhando. – Gaguejou Rubens.

Do outro quarto eles podiam ouvir o som advindo do videogame de Milton e suas risadas.

Lunarius

12/10/2016

A lua negra é um fenômeno comum, corriqueiro aos olhos dos humanos, ela ocorre sempre antes da lua nova. Por ser uma fase em que eu, a lua, não apareço, as pessoas tendem a não perceberem. Eu sou muito inconstante do ponto de vista que se relaciona aos outros astros no sistema solar. Tenho os ciclos mais comuns, conhecidos pelos humanos como nova, crescente e minguante.
Sabe, essa minha inconstância afeta de maneira incontestável a vida na Terra, o que os ajuda a prever certas coisas como a maré, os ciclos femininos e até mesmo mentais, já que o povo pode viver no mundo da lua por lá, sabe? Quero dizer os aluados, os que enlouquecem.
Por isso tudo posso dizer que me divirto muito com as lendas e mitos que criam sobre minhas mudanças e a que mais gosto, tanto que procuro usa-la para me divertir, é a Lua de sangue. Quando eu estou muito mais perto da Terra e estou entre o sol e a Terra incido uma luz tão vermelha que as mentes pequenas dos humanos ficam cheias de superstições.
É raro que eu esteja nessa condição, só quando estou muito entediada mesmo, e por isso, desde que me lembro e antes da humanidade, posso ver coisas mais detalhadas, como as nuances da sanidade. Divirto-me estrondosamente quando eu estou A Lua de sangue.
Em geral as crianças não podem ver a lua que sangra pela noite afora, porém Dayane estava à janela com insônia, após uma noite em que os pais brigaram e ele bateu na mãe, saiu de casa e elas ficaram sozinhas. O apartamento era no décimo terceiro andar e ela viu o carro do pai sair pela porta da garagem do condomínio. Ela já havia chorado muito, e sentou na janela para esperar o pai voltar, já que não dormiria. A lua apareceu no horizonte e ela era enorme, Dayane nunca a vira desse tamanho, distraiu-se olhando para a lua que avermelhava aos poucos, como se escorresse nela o sangue da sua dor. Para conseguir sentir melhor o que acontecia naquele lugar Dayane abriu a janela e subiu no parapeito, ela não era uma criança novinha, já com seus doze anos podia ficar ali sem rede de proteção, e... de repente a chance de se livrar daquilo tudo, com seu desejo de subir ao céu, foi incontrolável, Dayane se jogou pela janela, olhando para a lua até seu corpo se quebrar no chão de cimento.
O celular de Joyce tocou e era a Caroline, ela chamava a amiga para sair e ver a lua, e tinha algo para mostrar para ela, que ganhara do namorado. Joyce saiu sem que seus pais vissem, pois acham que ela estava dormindo, ela foi para a casa da Caroline correndo, pois sentia uns calafrios e tinha certeza de que estava sendo observada. A lua estava estranhamente vermelha, o que fazia acelerar seu coração. Quando chegou à casa da Carol, a amiga estava na garagem com o namorado, um rapaz mais velho, e um amigo deles, outro cara mais velho. A Carol podia namorar, mas a Joyce não. Mesmo assim sempre tinha uns amigos legais para conhecer com a Carol. Eles tinham uma coisa para beber, e era alcoólico. Todos estavam bebendo, quando ouviram sons estranhos na rua, e Joyce sentiu tanto medo de ser pega pelos pais que resolveu voltar para casa, mas estava muito tonta. Todos tentaram impedir que ela fosse, mas ela saiu correndo, e cambaleando, e se pegou olhando para a lua que estava bem a sua frente, enorme e inquisidora, culpando-a. Foi a sua primeira bebedeira, ela tinha só 13 anos. Em casa ela se dirigiu à gaveta que tinha no quarto dos pais, que estavam dormindo, lá pegou o revolver e foi para o quintal, falou para a lua "Você não devia falar assim comigo", "Eu sei que sou uma garota horrível", Joyce preparou a arma, "Realmente, não deveria continuar vivendo, mas eu quero...", Joyce voltou À casa da Carol e atirou nos três que estavam lá. "Agora eu não farei mais coisas erradas", disse à lua.
Cristiano estava brincando no quintal, pois acordara e os pais estavam dormindo, ele tinha sete anos, e era três horas da manhã não podia ligar a televisão, mas podia brincar com seus bonecos de ação. A Lua estava bem sobre ele, ele não conseguia brincar, sentia-se constrangido por aquele enorme satélite o observando. Para tentar se livrar daquela obscena observadora ele foi para a garagem, lá talvez ela não conseguisse vê-lo, e era verdade, mas as pessoas que passavam na rua podiam vê-lo... sei que era tarde, mas não havia só Cristiano com insônia, outros garotos estavam passando de bicicleta por ali, e ele ouviu as vozes, quando se aproximaram ele reconheceu seus amigos, e pegou a bicicleta, foi até eles e todos estavam muito estranhos, rindo muito e acelerados. Disseram que tinham visto uns corpos, e a polícia estava lá, queriam ver, mas também havia outro corpo, uma menina que se jogou do apartamento. Não sabiam onde ir, por isso resolveram ir no mais perto, ficaram de longe olhando, mas Cristiano estava encucado com a lua, que se dispunha sobre a casa de uma forma que não podiam esconder, as pessoas estavam por ali nos cantos, todas sussurrando, a família desolada, gritos e choros. Cristiano entrou na casa, ele não sabia por que fazia aquilo, mas ninguém o viu, e foi até os corpos, encontrou os corpos, aninhou-se no sangue que tinha no chão e ao lado do corpo do namorado da Carol, havia um buraco de tiro que sagrava escorrendo lentamente, e então Cristiano se pôs a beber aquele sangue, tinha gosto de ferro e pólvora. Os policiais estavam falando com a família na calçada, as pessoas não olhavam para a garagem, todos estavam olhando a lua, e a lua estava olhando para todos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Maternidade culposa


17/9/2016 



A pacata vila de pensionistas que se localizava na periferia de uma cidade interiorana chamava-se "Descanso e Paz". Era um lugar destinado a policiais e suas famílias, incentivos feitos pelo governo daquele Estado, para garantir moradia e condições humanas. Porém, no fim das contas, quem acabou tendo a maior cota foram as famílias de policiais mortos ou inválidos por consequências de seu serviço. Havia muitas mulheres e muitas crianças e poucos inválidos, na verdade.
Uma periferia de cidade interiorana se caracteriza por estar bem distante dos centros, perto de matas e com pouca infraestrutura. As casas iguais se enfileiravam e havia um muro que deixava aquele condomínio parecer protegido. As noites eram bem frias devido à mata, e muitas vezes a ventania sussurrava dentre as árvores.
Juliana levantou assustada por estar ouvindo algo que não conseguia definir, correu para o quarto da mãe e a acordou. Ela ouvia sons que não eram dos sussurros das árvores e nem eram cães ou animais, sons comuns que eles ouviam esporadicamente. A menina arfava e chegou a urrar respondendo aos sons que dizia ouvir, mas sua mãe só pode concluir que ela estava sonâmbula. Em algum momento da alta madrugada a garota adormeceu em sua cama.
Poucos minutos depois o celular da mãe de Juliana sinalizou, como uma criança que está com fome, que a bateria estava acabando. Quando ela o verificou, havia diversas mensagens: mãe do Artur, mãe do Lucas, mãe do Leonardo, mãe da Fátima, mãe da Luíza. Todas relatando que as crianças estavam alucinadas e sonambulas. Parecia óbvio que aquilo era alguma coisa na alimentação da escola. Elas investigariam na manhã seguinte. 
A mãe de Juliana adormeceu e teve sonhos terríveis. Sonhou que Juliana pegava um trem para o centro, ela ia embora. A sensação era desprezível, pois era um alívio. Juliana acenava e se distanciava. A mães das outras crianças tiveram sonhos  e relatos parecidos, e acordaram enjoadas e com os seios doloridos.
O dia iniciou-se e transcorreu com as investigações, a escola averiguaria, as mães acabaram indo ao posto de saúde no centro, saíram com diagnósticos estranhos de gravidez. Pensaram “só pode ser psicológica”, mas não compartilharam essa informação entre elas, preferiram se resguardar e nenhuma sabia que as outras estavam na mesma situação. Porém, para garantir que não haveria problemas, investigaram também a padaria, o mercado e o açougue que as abastecia. Lembre-se que era uma região periférica, com poucas opções para tais fornecimentos.
Buscaram as crianças na escola, passaram a tarde observando-as e trocando mensagens, para se atualizarem sobre seus comportamentos. Seus filhos brincavam e se alimentavam normalmente, mas as mães... elas não! Elas ficaram enjoadas, tontas, com muita azia e mal-estar.
Durante a noite, novamente Juliana acordou desesperada com os sons que não se podiam ouvir, mas dessa vez deixou claro que não estava sonâmbula. Ela se inflamou como uma fogueira de Sabbath e obrigou a mãe a sair para observar o que havia na escuridão. Ela foi arrastada, pensando que provaria alguma coisa para a filha, mas o que se sucedeu foi que havia outras mães e crianças saindo à rua às três horas da madrugada. Elas se olharam, as crianças se dirigiram para a saída do lugar, elas as seguiram, tudo parecia fora do tempo: as árvores ariscas e o vento rangendo os dentes como se tivesse bruxismo, num ritmo acelerado e sexual, como se agissem minutos em segundos. Foi quando ouviram o som de um uivo contundente, diverso a qualquer outro uivo possível, como um uivo de núpcias.
A luz da lua era tremendamente maternal, acolhia a todos, e a sensação de estranheza se foi, as mulheres se aninharam em uma clareira pequena, em círculo. Adormeceram como se inanimadas, mas estavam extasiadas. As crianças estavam brincando e felizes sobre os corpos das mães, subindo nas árvores e se sintonizaram no tempo acelerado que estava além do tempo comum, como se segundos contemplassem minutos.
 A noite se passou quando a mãe de juliana acordou com umas pontadas no ventre, colocou a mão e sentiu que estava com a barriga enorme, olhou em volta e viu as outras mulheres prenhas como ela, algumas já acordadas, outras dormindo, e de repente ela olhou para cima, e viu a cena mais terrível que poderia ser descrita aqui: seus filhos, treze crianças, todas penduradas com uma estética impecável, alinhadas simetricamente e numa perspectiva perfeita de onde quer que se olhasse, penduradas nas árvores, enforcadas.

sábado, 10 de setembro de 2016

Sombras da noite


10/9/2016


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A noite estava fria e em sua cama dura e estreita Leandro tremia, pois a coberta furada e gasta não dava conta daquele ar estremecedor. Havia uma luz que vinha do poste que se localizava diante da janela, e se direcionava incauta aos olhos do garoto. Ele tossia bastante, e as crianças que estava a sua volta reclamavam, não tinham mais nada para jogar nele, mas jogaram tudo o que tinham antes. Chegava a meia noite, ele sabia que só terá terror para ele.
Uma voz sibilou próxima a sua orelha, chamando:
- Vem, vem, vem...
Ele cobriu a cabeça e os pés se descobriram. Ele tremeu mais de medo que de frio. Tossiu sob a coberta e algo úmido ficou incontido em sua boca. Ele tocou aquele líquido e observou a cor enegrecida em seus dedos, pela luz do poste, e sabia que era sangue, pelo sabor e pela cor.
Vultos passavam por ele, sobre ele, sob ele. Ele podia sentir o toque deles e ignorava o que lhe falavam, pois sempre o chamavam para ir morar com eles, e Leandro não queria morre, ele só queria ter uma família. Estava realmente com muito medo. Quando conseguiu dormir ele sonhou que estava em uma casa clara e iluminada, com outras crianças brincando no quintal. Pela porta dos fundos da casa uma mulher linda e gorda saiu e chamou a todos para o lanche da tarde e eles, incluindo Leandro, a chamavam de mãe.
No sonho ele se sentia completo, ele não era raquítico, não sofria daquilo que ele não sabia nomear, mas que posso afirmar a você que era tuberculose. No sonho as outras crianças estavam com ele e não longe dele, com medo, pois ele não via as coisas que apareciam para ele a noite, ele não via mais as pessoas mortas.
Ele sabia que era órfão, que foi deixado lá depois que nasceu por sua mãe ter morrido no parto, e não ter família. Ele sabia que os doze anos que já vivera poderiam ser um passado esquecido quando um futuro melhor chegasse, e ele sonhava com esse futuro quase toda noite, quase todo o dia, o tempo todo.
Durante o lanche da tarde, naquele sonho que estava vivendo, ele começou a tossir, e então se lembrou que estava doente e então acordou. O relógio grande e barulhento que se posicionava sobre a grande porta de duas folhas que acessava aquele quarto mostrava duas e cinquenta da madrugada, ele não sabia ler, mas aprendeu a ver a horas depois de muito pedir e treinar com as freiras e segurança daquela instituição.
Ele tossia mais, e as pessoas mortas estavam em trono da cama, como que formando um globo espectral frio, regelado, assustador, cheio de vozes em coro:
- Você está quase pronto, vem Leandro, vem Leandro, você está quase pronto.
Ele tossia mais alto e mais vezes, seu peito doía, parecia que havia uma faca trespassando-o do peito para as costas e quando ele respirava ou tossia aquela dor lancinante se propagava, o mutilava. Muito sangue escorria livremente pela boca que não se fechava em busca de ar, um ar que era espesso, duro, entrava rasgando as narinas e a garganta, e mesmo assim ele buscava mais. Ele não conseguia entender, mas as outras crianças gritavam com ele.
Ele tentou se levantar para respirar melhor, tossindo e tossindo, ficou de quatro sobre a cama, arcado e arfando desesperadamente, tossindo e tossindo... sangue, muito sangue, ele não conseguia respirar. Passou a tossir e vomitar sangue, até perder as forças e cair no chão.
Com a barriga exposta para o teto, o corpo se contorcendo sem que ele pudesse conter os espasmos, as crianças que ainda estavam vivas levantaram e o chutaram, e a dor parecia não indicar que era uma violência que não vinha da doença.
De repente as crianças foram projetadas e caíram no corredor das camas, e desesperadas começaram a gritar. As luzes se acenderam e Leandro já não tossia, só arfava, afogando-se no próprio sangue, ele viu vultos de pessoas vivas e vultos de pessoas mortas e era agora um vulto. Parou de sentir frio, dor e de tossir:
- Leandro! Agora você não está mais sozinho! – era a mãe, bela e gorda, envolta pelas crianças que brincavam com ele, abraçando-o com muito amor. – você tem uma família agora.
- Eu... eu... morri?
- Você tem uma família agora, Leandro.
Ele não podia ver as pessoas vivas, ele não via mais nada além do que vivia ali, naquele plano. Agora ele teria uma vida como sonhara por toda a sua outra vida.


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Sempre do ponto de vista de crianças, suas protagonistas, os contos da Obra Perturbadora pretendem mexer com seu leitor, trazendo experiências de leitura com finais abertos e incongruências propositais, que podem até parecer em primeiro momento uma falha da autora, porém, o resultado no leitor é, em geral, atingido e previsto durante a sua produção.
Prepare-se para sentir estranheza, insegurança, suspense, violência, e principalmente a expectativa que traz a melhor sensação do suspense. A autora busca em alguns contos contextualizar o seu leitor para depois apresentar um desfecho incongruente ou violento, ou de uma forma muito distinta não contextualiza o leitor e dá toda a situação ocorrida e o que se espera é que a experiência do leitor trabalhe com as questões que surgem, de forma a trazer à tona a própria identidade do leitor, seja instigando-o a buscar respostas que não terá, a se revoltar com a falta de informação desejada ou a lidar com o prazer da sensação atingida na leitura. Que tipo de leitor é você? Um detetive, que quanto mais instigado mais busca saber? Um frustrado que para a leitura por não aceitar o jogo da autora? Um imaginativo que complementa as histórias com as possibilidades e se delicia, seja com o contexto que lhe é cobrado ou com o desfecho que é incongruente?
Descubra-se lendo a Obra Perturbadora, contos curtos e rápido de terror, mistério e suspense que trazem desde os mais clássicos terrores psicológicos até os mais modernos, influenciados por Edgar Alan Poe, Stephen King, Lovercraft, entre outros, além de o cinema do século XX e XXI.

domingo, 28 de agosto de 2016

Zona morta

28/8/2016

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Ester despertou sufocada em um lugar escuro, com uma sensação espacial de vazio completo, seu coração estava lento, a temperatura era baixa, e seu corpo parecia estar em câmera lenta em suas funções, como se ela fosse um filme em slowmotion, mas se movia como se fosse normal estar daquela maneira. Levantou-se do que julgou ser o chão e direcionou-se para o que era a a sua frente, até que a luz começou a chegar, estava diante de uma casa parecida com a sua, mas havia diversas coisas diferentes.

Explorou o ambiente e encontrou dentro do quarto uma outra Ester, que lia um livro, porém, na parede, onde em seu quarto havia a lembrança doa maternidade com seu nome, havia o nome de Linda. Ester bateu no vidro da janela, foi atendida por Linda, que ficou espantada, Ester chorava e disse: sou sua irmã gêmea. Depois de explicações e estranhamentos, Linda acreditou em tudo o que Ester dizia e deixou a garota entrar em sua casa, estavam sozinhas. Os pais trabalhavam. Ester era convincente. Era tudo mentira. Pediu algo para comer e disse que fugira do orfanato atrás da verdade. Lá, no ambiente onde havia diversas maneiras de se livrar da sua doppelganger, encontrou a faca mais próxima e encravou em suas costas, saindo correndo para retornar a zona morta de onde viera.

Ester chegou à zona morta e suas funções voltaram a diminuir, ela se sentou no meio daquele lugar escuro e se colocou a pensar com cuidado e tentar decidir qual seria a melhor maneira de agir para que garantisse que a exclusividade de suas ações pudesse se dar ao ponto de sua experiência única garantisse a extraordinária façanha de quebrar a barreira da paralelidade, impossível até então, pelo que se sabia, para a ciência e a religião. Se ela realizasse a façanha desse tornar o único exemplar e si, mesmo que de forma antinatural, indo contra a natureza que permitiu que ela fizesse isso, o caos se propagaria e o universo se dilataria?

Era pura vaidade?

Imoralidade?

Se não havia limite, testar e encontrar o limite deveria ser o seu dever. Levantou-se, se empertigou com o frio e se encaminhou para a empreitada ferrenha de eliminar-se de mais uma linha temporal, paralela, espacial e física que não entendia, e que não aceitava. Em algumas ela não se encontrava, pois nem viera a existir. Noutras ela já havia morrido, e isso a satisfazia, pois não era regozijador dar cabo a si mesma tantas vezes, mesmo que não fosse assim que ela visse, era o seu rosto, com manchas, espinhas, cicatrizes, sotaques, cegueira, mudez...

Em geral a estúpida sempre acreditava em sua história, até que encontrou as gêmeas, Lídia e Lidiane. Aí teve que fingir que era na verdade convencida por elas de que eram trigêmeas ou parte de algum programa do governo que as clonavam e espalhavam pelo mundo e acompanhavam os experimentos socioculturais que se tornavam. Essas foram as mais engraçadas. Passou um tempão com elas. Foi difícil envenená-las daquele jeito.

Um dia, não conseguia mais encontrar a zona morta, aquele lugar todo escuro que a fazia conseguir encontrar os caminhos para essas meninas tão estúpidas de si mesma. Ficou presa naquele lugar, em que já tinham dado como desaparecida a sua doppelganger. Viveu nas ruas, como uma mendiga até desaparecer para si mesma.

Em seu mundo, aquele onde ela era Ester, Maxine, a enfermeira que cuidava do corpo ligado a aparelhos, teve enfim a oportunidade de lidar com aquele problema e desligou o suporte artificial de vida que a sustentava.
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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Fria sincronia

26/8/2016




Ouçam o conto aqui.
 


Ana, Joaquim e Alan eram muito amigos e andavam sempre de bicicleta pelo bairro juntos. Naquele dia eles queriam ir até o lago que ficava longe, nunca falavam para os pais que iam até lá, pois era muito longe e eles não deixavam. Arrumaram as roupas para nadar e colocaram na mochila, saíram cedo, logo após o café da manhã, assim que amanheceu. Estavam de férias, mas acordavam cedo com os pais para tomar café.
Pedalaram por uma hora, na velocidade máxima, o sol estava quente e aumentando a temperatura, eles iam se divertir muito, é claro! Colocaram as bikes sob a árvore maior que tinha por ali para não tomarem muito sol, trocaram as roupas e caíram na água. Ninguém morava perto do lago, pois havia uma rodovia ali perto, eles moravam no interior, não havia invasões e nem coisas do tipo.
Ana estava boiando quando de repente ouviu Alan gritar por Joaquim. Ela tomou um susto, pois ele parecia preocupado, quando olhou para eles, Joaquim estava boiando de barriga para baixo, sem se mexer, com a cara na água. Ela nadou até eles, ambos puxaram o garoto para a beirada do lago:
- Você faz respiração boca a boca nele! - disse Alan
- Ai, que nojo! - eles eram treinados em primeiros socorros na escola, pois havia um projeto para isso, feito pelos bombeiros e polícia, para prevenção.
Ela abaixou, respirou fundo, segurou o nariz de Joaquim e colocou a boca na dele, enquanto assoprava sentiu a língua do garoto na sua boca. Ela gritou e chutou o moleque, os dois meninos riram muito, mas todos sabiam que Joaquim gostava de Ana.
Ela voltou para a água, xingando-os com todos os palavrões que você pode imaginar e uns que nem eu conhecia, alguns nem eram palavrões: otários, bobos, retardados, abusados, cretinos, curva de rio, tranqueiras, imbecis, e assim por diante. Eles estavam nadando e resolveram disputar para quem ia mais fundo e ficava mais tempo nadando lá embaixo, tomaram fôlego, contaram até três, desceram e começaram a explorar o fundo da lagoa, começando pela parte mais rasa, eles tinham que dar uma volta completa, e era a volta mais longa. Depois de alguns metros eles chegaram a parte da lagoa que ficava mais próxima da rodovia.
Foi neste momento que Ana encontrou algo estranho, gesticulou fortemente para que os garotos que foram até onde ela apontava incisivamente, e então viram o que lá havia: um corpo. Eles puxaram para fora do lago e estava tão frio e roxo, inchado e amolecido que não poderia ter sido deixado ali a pouco tempo, porém, não estava em decomposição, era um corpo grande, um ser humano adulto. Não tinha as pontas dos dedos das mãos, eram tocos. A cara estava destruída por pancadas, e os dentes ausentes. Era uma mulher, tinha partes da pele arrancadas, pois deveria ter tatuagens ali. Ana ficou encabulada quando viraram o corpo e viu a sua nudez, os meninos não sabiam o que fazer.
Joaquim vomitou, todos choraram e confabularam inocentes:
- Vamos falar para as nossas mães!
- Não, precisamos chamar a polícia e fugir daqui!
- Vocês estão loucos? Não podemos falar para ninguém!
Neste instante o barulho de um carro se aproximando do lago chamou a atenção deles e eles correram para se esconder nas árvores. O carro se aproximou e estacionou na beira do lago, de dentro saiu um homem, que foi até o porta malas e retirou um corpo de lá, os meninos identificaram pela mão que pendeu do pacote em que estava embrulhado. A mão não tinha as pontas dos dedos, era uma mão só com os tocos, mão pálida, com as pontas dos tocos vermelhas, a cor da carne fria da morte recente.
O homem se dirigiu para a beira do lago com o pacote humano e se deparou com o outro corpo que não devia estar ali, colocou o pacote no chão, se virou e viu os garotos. Sacou uma arma e atirou, enquanto eles gritavam e corriam para as bicicletas. Ele atirou mais vezes, acertou Alan primeiro, depois Ana e depois Joaquim. Eles caíram gritando muito, chorando e chamando por Deus e pelas mães, mas a única coisa que respondeu foi o homem:
- Olá, crianças. Vamos dar uma volta.
Dessa vez os meninos seriam separados friamente, cada um em um lago belo e diferente, em estados distantes e diferentes, em dias ensolarados e diferentes.


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Sempre do ponto de vista de crianças, suas protagonistas, os contos da Obra Perturbadora pretendem mexer com seu leitor, trazendo experiências de leitura com finais abertos e incongruências propositais, que podem até parecer em primeiro momento uma falha da autora, porém, o resultado no leitor é, em geral, atingido e previsto durante a sua produção.
Prepare-se para sentir estranheza, insegurança, suspense, violência, e principalmente a expectativa que traz a melhor sensação do suspense. A autora busca em alguns contos contextualizar o seu leitor para depois apresentar um desfecho incongruente ou violento, ou de uma forma muito distinta não contextualiza o leitor e dá toda a situação ocorrida e o que se espera é que a experiência do leitor trabalhe com as questões que surgem, de forma a trazer à tona a própria identidade do leitor, seja instigando-o a buscar respostas que não terá, a se revoltar com a falta de informação desejada ou a lidar com o prazer da sensação atingida na leitura. Que tipo de leitor é você? Um detetive, que quanto mais instigado mais busca saber? Um frustrado que para a leitura por não aceitar o jogo da autora? Um imaginativo que complementa as histórias com as possibilidades e se delicia, seja com o contexto que lhe é cobrado ou com o desfecho que é incongruente?
Descubra-se lendo a Obra Perturbadora, contos curtos e rápido de terror, mistério e suspense que trazem desde os mais clássicos terrores psicológicos até os mais modernos, influenciados por Edgar Alan Poe, Stephen King, Lovercraft, entre outros, além de o cinema do século XX e XXI.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

É de satanás

24/8/2014



O último nome que eu ouvi para este ser foi Capiroto. Você o conhece? Pois bem, Maria era uma menina que gostava muito de passear pelo bosque perto de sua casa, e passava as tardes por lá, mas nunca se deixava por lá até o escurecer, pois, dizem que aquele lugar era mal-assombrado. Bem, mal-assombrado era pouco, pois na verdade era a casa do Cão.
Como ele passava os dias a preambular pela cidade, o demônio voltava para a sua casa à noite. Você deve se perguntar o motivo de o Anticristo morar em um bosque específico, sendo que ele é o Rei do inferno, e deveria ficar por lá. Bem, na verdade ele tem muitas moradas, e não está em um lugar único ele paira e vive em muitos lugares e a sua materialização acontece sempre de acordo com as crenças e costumes do lugar.
Maria era simplesmente uma das descendentes mais antigas daquela região. Seu sangue era virginal e puro, trazendo muitas ligações com a era do culto ao Diabo. Maria era descendente de bruxas, e havia ainda bruxas que moravam ali, no vilarejo ao entrono do bosque, mas ninguém além delas sabia.
Por ser muito jovem a menina ainda não havia sido iniciada em seu mundo, mas sua família a preparava indiretamente. O tinhoso estava ali sempre para apreciar as oferendas e os cultos das bruxas de Sleepy Hollow. Claramente o chifrudo tinha um gosto pelas tradições antigas.
Nessa noite de lua cheia era o Sabbath, e Maria estava passeando pela floresta à tarde quando viu um vulto na floresta, como estava cedo, imaginou que fossem mantes passeando para namorar e espreitou pelas folhas, mas não conseguia alcançar Lúcifer. Ela acompanhou o quanto pode e percebeu que aquele lugar onde estava não era conhecido. Houve uma repentina escuridão e ela não sabia que estava ultrapassando o portal dos mundos, que Mefistófeles acabara de abrir. Como eu disse, era a noite do Sabbath, o dia em que os mortos andam pela terra entre os homens.
Estavam empolvorosos e nem perceberam a criança. Havia um cheiro putrefato no ar, cheio de enxofre e cor de azeviche. Esqueletos e corpos que estavam em decomposição, fantasmas, entes queridos que ela não conhecia daquela maneira, todos pareciam fantasiados e ela parecia uma fantasia.
Se abaixou e enquanto saiam os mortos a sua vida entrava diretamente para aquele lugar por sob as pernas dos seres que lá residiam. Tudo ia ficando quente e sua pele ardia de dentro para fora. Era como se seu corpo expulsasse a vida de dentro dela. Repentinamente ela começou a brilhar e tudo se iluminou, havia restos mortais por todos os lados, e um abismo onde ela quase se precipitara na escuridão.
Havia gritos de horror, havia sangue nas árvores que estavam em sua volta, havia ... havia... havia a sua família! Sua mãe, suas irmãs, muitas mulheres que ela via no dia a dia, estavam todas... mortas?
Coisa-Ruim, sem mais nem menos agarrou Maria pelos braços. A menina gritou e se debateu, Satã rugiu para ela e mostrou sua face horrenda, ela desmaiou e ele a pegou nos braços, e foi quando todas as outras mulheres, no plano terreno, puderam ver a menina pairando no meio do círculo que formavam, ela estava sobre a fogueira.
O Solstício de verão acabou, amanheceu um dia ensolarado e belo, Maria acordou nua no meio da floresta, correu para a sua casa e disse aos seus pais que havia estado no inferno e que Satanás a tinha sequestrado. Contou tudo o que aconteceu, quem vu em volta da fogueira e chorou muito, sua mãe lhe disse:
- Maria, acalme-se, você estava dormindo e teve um pesadelo, vá já para o seu quarto.
A irmã de Maria virou-se para a mãe e disse:
- Então ela é a escolhida?

- Sim, é ela.
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