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domingo, 28 de agosto de 2016

Sobre os tipos de finais e objetivos de um texto

   Boa tarde povo lindo, estou aqui para falar um pouco da minha produção de cotos mais recentes, que vêm causando polêmica no meu público (que nem é tão grande assim) jovem. Os adultos que estão lendo têm me dado bons retornos, apesar de alguns não concordarem com o estilo.
   Vou tentar mostrar um pouco do que eu estou fazendo, do meu ponto de vista. Nâo esqueça que o que você vê é o que está do seu ponto de vista, não espero que vocês concordem e nem que vocês interajam com isso, mas se interagirem, antes de perguntar para mim o que EU QUERO COM O TEXTO, perguntem: por que me incomodei tanto com este texto.
   Tenho trabalhado com temas do imaginário da linha de suspense e terror que eu mesma consumo, e pela primeira vez me sinto a vontade para escrever esse tipo de literatura, pois antes achava-me incapaz e nem tentava, ou até mesmo evitava. Devido as necessidades de material para a análise de casos na sala de aula eu resolvi começar a produzir. Resolvi livrar-me do preconceito do que EU acho clichê, olhar para as possibilidades dos temas em relação À minha experiência e causar no leitor aquilo que gosto muito que uma obra cause em mim: frustração, expectativa, reflexão, mudança de perspectiva, etc.
   Sim, eu quero frustrar vocês, adoro escrever contos com foco em frustração. Seja qual tema for. Os livros mais incríveis me deixaram altamente frustrada. Não livros simplórios, falo daqueles que trabalham a frustração e não que são frustrantes (vulgo A culpa é das estrelas - minha experiência pessoal). Por isso posso citar aqui minhas influências de autores, livros e filmes que você pode assistir e tentar entender o motivo de e achar que esse estilo me atraia. Vamos lá:

Autores                                                            Leia
Edgar Allan Poe                                              O coração delator, Berenice, O poço e o Pêndulo
Stephen King                                                   O cemitério, O iluminado, Jogo perigoso
Machado de Assis                                            A cartomante, Primeiro de Maio, Memórias Póstumas
Lygia Fagundes Telles                                     As cerejas, Venha ver o por do sol

Veja
O iluminado (Kubrick)
2001: uma Odisseia no espaço (Kubrick)
Taxi Driver
O clube da Luta
Magnólia
Como não perder essa mulher (não recomendo para menores, pois ele pode ser chato para vcs)]
Os outros
O nevoeiro
Bastardos inglórios (Tarantino)
Pulp Fiction (Tarantino)
À prova de morte (Tarantino)
Planeta Terror (Tarantino)
Os oito odiados (Tarantino)
Donnie Darko
Coherence
Primer

Quero Ser John Malkovich

Brilho eterno de uma mente sem lembranças



   Depois eu incremento essa lista. Se você se sentiu frustrado com algum dos contos, obrigada por atingir meu objetivo. Qual o objetivo de ensinamento no conto? Bem, isso vai depender mais de você que de mim. Crianças que saem escondidas e são assassinadas talvez seja um ensinamento muito mais do quanto o mundo pode ser ruim do que o fato de elas mentirem e por isso se ferrarem.
   Trabalhar com o imaginário das crianças, trazer elementos de obras clássicas e nem tão antigas é uma coisa que quero garantir, pois eu tive a oportunidade de conhecer Edgar Allan Poe quando criança, mas já tinha um conhecimento básico de obras ligadas ao estilo policial, e tenho que tomar cuidado quando leio as obras de Poe que são deste estilo, pois ele é quem trouxe essa vertente de forma a influenciar diversos autores posteriores a ele, e por isso também as referências e plágios são excessivos e podem parecer que ele que tenha copiado, quando há uma bela emulação (nunca vão superar o mestre, mas sempre podem melhorar e acrescentar de acordo com o nosso tempo e espaço.).
   Para ajudar eu encontrei esse site e coloco aqui um trecho que fala sobre os finais. Espero que ajude e que você possa se inspirar e escrever também. Obrigada pela leitora, pelo apoio e se puderem divulguem!

FINAL UTÓPICO
O Final Utópico é aquele onde tudo dá certo para o protagonista. Ele consegue seus principais objetivos, o vilão/oposição é derrotado e punido e os personagens secundários que apóiam o protagonista também terminam bem. É o famoso "viveram felizes para sempre".Alguns teóricos chamam esse tipo de final de Hollywoodiano, pois muitos filmes americanos tem a tendência de retratar esse tipo de história. Isso ficou claro principalmente durante a década de 30, altamente turbulenta por causa da grande crise capitalista de 1929. Acontece que a vida não é assim, e esse final acaba não correspondendo a realidade. Logo, o autor deve ter um pouco de cautela. A maioria dos desenhos animados da Disney tem finais utópicos, havendo raras exceções como O Rei Leão.A ideia central por trás desse tipo de final no nosso mundo contemporâneo, é a de que o cidadão passa por tanta apurrinhação e estresse na vida diária que uma obra utópica serve para levantar o seu ânimo, e isso muitas vezes é verdade. Em alguns momentos queremos sim ver tudo dar certo para um personagem ficcional, mas dificilmente uma obra séria se sustenta com esse tipo de final.Exemplos:Uma Linda Mulher (Garry Marshall, 1990) - Uma prostituta conhece um milionário e ambos acabam se apaixonando, vencendo todos os impecílios. Típico de contos de fada.

FINAL POSITIVO
Quando o personagem principal consegue a maioria dos seus objetivos, principalmente o de vencer o principal obstáculo, mas sofre algumas perdas durante o caminho, temos o Final Positivo, mais próximo da realidade do que o Utópico. Raramente o personagem principal morre em um final positivo, mas isso pode acontecer, desde que a mensagem final seja a de um triunfo realizador.Personagens secundários ligados positivamente ao protagonista geralmente são os escolhidos para serem "sacrificados" e provocar sofrimento. É importante notarmos que dificilmente um final é positivo se o objetivo principal do protagonista não for alcançado. A exceção seria o protagonista perceber que o seu desejo inicial não corresponde mais a sua vontade, e então ele acaba ficando mais satisfeito e realizado alterando seus objetivos no fim.Exemplos:O Senhor dos Anéis (J.R.R. Tolkien, 1955) - Na clássica trilogia de fantasia, o grande inimigo Sauron é derrotado pelos povos livres. Porém, incontáveis perdas significativas ocorrem na jornada, como a do guerreiro Boromir e o êxodo dos Elfos, que resolvem sair da Terra Média. No entanto, a mensagem final é clara o bem triunfa.Rocky (John Avildsen, 1976) - Boxeador fracassado do subúrbio da Filadélfia tem a chance de disputar o título mundial de boxe. Reparem que o principal objetivo de Rocky não é vencer Apolo o doutrinador, mas sim aguentar os 15 rounds e conquistar a tímida Adrian, o que ele consegue. Se ele vencesse a luta aí sim o final seria utópico, muito forçado, e provavelmente o filme não ganharia o Oscar.

FINAL NEGATIVO
Bem, esse tipo de final é aquele que você mal consegue levantar da cadeira ao concluir a obra de tanta depressão. O personagem principal simplesmente não consegue seu objetivo e geralmente tem um destino trágico. O positivo contido na narrativa não é suficiente para equilibrar nossos sentimentos. Ao contrário do que possa parecer, Hollywood está cheia de finais negativos, incluindo inúmeros vencedores de Oscar.Exemplos:Amadeus (Milos Forman, 1984) - O grande gênio da música Wolfgang Amadeus Mozart não consegue se estabelecer como um músico da corte austríaca, tem grandes dificuldades no casamento, fica doente, morre e é enterrado em uma vala comum. O pouco sucesso em vida e o monstruoso sucesso após a morte não compensam o sofrimento. Oscar de melhor filme.Menina de Ouro (Clint Eastwood, 2004) - Boxeadora fica quadriplégica e seu técnico a ajuda em seu suicídio. Esse é bem pesado. Oscar de melhor filme.The Amazing Spider-Man 121 - A Noite que Gwen Stacy Morreu (Gerry Conway, Gil Kane, John Romita, 1973) -  Para quem só conhece o Homem-Aranha dos filmes, saiba que sua vida nos quadrinhos é mil vezes pior. Nessa trágica história, Gwen Stacy, a namorada de Peter Parker (o nosso herói), é atirada de uma ponte pelo mortal Duende Verde. O Homem-Aranha ainda lança sua teia para resgatar a amada mas ela acaba perdendo a vida. Até hoje persiste a dúvida se ela morreu do choque da queda ou quando a teia grudou nas suas costas provocando forte impacto. No primeiro filme, a Gwen Stacy é substituída por Mary Jane e a morte não acontece. Apesar do Duende ter morrido acidentalmente no duelo final, a perda é irreparável e, como muitas das histórias do Homem-Aranha, o fim é depressivo.

FINAL BALANCEADO
O Final Balanceado é difícil para o autor escrever, e na minha opinião é o tipo de final mais próximo da realidade. É um final onde o personagem principal consegue seu objetivo com grande perda, ou onde ele não consegue seu objetivo mas no fim temos uma sensação de esperança, um pequeno sorriso no canto da boca. Grandes obras foram feitas e agraciadas com este tipo de final. Às vezes tendemos a achar que um final é negativo só porque não houve uma vitória final, quando na verdade esse final foi equilibrado e/ou esperançoso. Os exemplos abaixo definem bem um final balanceado.Exemplos:Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991) - Sem dúvida um dos melhores filmes dos últimos 30 anos, narra a história de duas amigas que resolvem fazer uma pequena viagem para fugir do cotidiano. Os problemas graves começam quando em uma noitada no bar, uma  amiga mata um homem que tentava abusar sexualmente da outra. Elas se desesperam e fogem, iniciando uma corrida contra a polícia com o objetivo de chegar ao México. No fim, cercadas pela lei, resolvem jogar o carro do topo da montanha em direção a morte. De início podemos achar que se trata de um Final Negativo. Porém, ao longo do filme, as amigas realizam uma jornada de descobertas em relação ao sentido da vida, se envolvendo em aventuras e tendo excelentes momentos. A imagem final do filme não mostra o carro se chocando nas montanhas, mas sim congela a tela com o carro no meio do ar, como se a vida durasse para sempre. Nos créditos finais vemos uma montagem de fotos que mostra momentos de alegria das amigas. Foi uma jornada (quest) que acabou em morte, mas nos mostrou como a vida pode ser intensamente vivida, e que é melhor, pelo menos para alguns, morrer livre do que viver preso.Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood, 2006) - Pela primeira vez um filme ocidental tenta mostrar a Segunda Guerra pela visão dos japoneses, retratando a famosa batalha na ilha de Iwo Jima contra os EUA no Oceano Pacífico. O filme é tenso, destacando o conflito entre a honra japonesa de morrer pelo seu império e o desejo de sobreviver a uma guerra insana e talvez inútil. Há suicídios coletivos, execuções e uma grande derrota dos japoneses. Porém, um dos personagens principais, um padeiro, sobrevive aos combates, e no final, sendo tratado por médicos americanos, observa o nascer do sol e realiza que voltará para a casa para rever seu esposa que estava grávida. É um final balanceado pois após toda a carnificina, termina com uma mensagem positiva.

FINAL INCONCLUSIVO
Os finais inconclusivos são aqueles onde o fim da obra não nos dá uma resposta definitiva sobre o destino do personagem principal, sendo um final praticamente "aberto", ou seja, sujeito a inúmeras especulações. Funcionam melhor em filmes mais artísticos e de vanguarda, que não tem um caráter comercial. O Final Inconclusivo pode algumas vezes ser visto em capítulos de minisséries ou revistas em quadrinhos mensais, mas nesses casos ele acaba sendo concluído no próximo episódio ou revista.Esse tipo de final sempre vai provocar polêmica, e para ser válido requer muita habilidade dos envolvidos na obra, principalmente do escritor e do diretor, no caso de um filme. A audiência está acostumada com finais fechados, que estabelecem um ponto final nas dúvidas levantadas na narrativa. Portanto, a obra, para ter um Final Inconclusivo, deve ser construída com atenção especial em certos detalhes, evitando o estabelecimento de objetivos pessoais muito fortes. Quanto mais a obra focar no objetivo de um personagem, mais a audiência desejará uma conclusão definitiva, ficando mais complicado para o Final Inconclusivo ter sucesso.Exemplos:2001: Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) - Talvez o melhor exemplo de final inconclusivo, 2001 narra uma expedição secreta de astronautas rumo a Júpiter para tentar desvendar a origem de misteriosos monolitos que aparentam ter milhões de anos. No fim, ao encontrar um desses monolitos, o astronauta Dave Bowman atravessa um túnel colorido, presenciando vários efeitos, e termina em um quarto com um estilo antigo de decoração. Dave vai se tornando mais velho dentro do quarto e depois é transformado em um gigantesco bebê que, em posição fetal viaja no espaço próximo a Terra. Cada um que tire suas próprias conclusões.Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959) - Clássica obra prima do Cinema Novo francês, narra a história de um jovem adolescente chamado Antoine Doinel que luta contra o rígido sistema familiar e escolar, se tornando um ladrão e rebelde. Enviado para um campo de trabalho próximo ao mar, Doinel escapa e foge para perto do oceano. No fim, temos um zoom da câmera que congela sua face, concluindo de forma aberta a obra. Não sabemos o que Doinel pensa nesse momento nem quais são seus principais planos.

FINAL SURPREENDENTE

Sabe aquele final que você fica parado, meio com cara de quem não entendeu nada, pois tudo aconteceu muito rápido? E aquele final onde de repente surge um personagem que não havia aparecido anteriormente e participa decisivamente do destino protagonista? Esses são os chamados Finais Supreendentes. Na verdade, os Finais Surpreendentes seriam uma espécie de subtipo, pois um Final Supreendente pode ser utópico, positivo, negativo, balanceado ou inconclusivo. Um Final Surpreendente não existe sem a companhia de um outro tipo.Esse tipo de final se relaciona com o termo da narrativa Deus Ex Machina (Deus surgido da máquina), originário do teatro grego, quando do nada surgia um Deus (geralmente um ator no alto sendo segurado por um mecanismo) para solucionar ou dar rumo a trama.Muitas vezes um Final Surpreendente pode ocorrer na última cena da obra, sem dar chance para um epílogo, justamente para tentar ganhar o espectador/leitor com uma imagem final impactante. É um final muito arriscado para o escritor, pois a audiência pode se sentir enganada. Portanto, o escritor deve ter muito cuidado e respeitar as características da sua história. Será que ela se encaixa bem com um Final Surpreendente?Exemplos:Os Infiltrados (Martin Scorsese, 2006) - Narra os eventos relacionados a dois espiões, um da máfia infiltrado na polícia, e outro da polícia infiltrado na máfia. Após um bom desenrolar da trama, temos uma sequência de cenas finais rápidas, onde os personagens principais morrem sem qualquer tipo de drama. Isso pode até ser mais próximo da realidade, mas em uma narrativa é perigoso. Nesse caso, Scorsese agradou a academia, que lhe concedeu o Oscar de melhor diretor e Os Infiltrados ainda levou outras três estatuetas, incluindo melhor filme.Estrada para a Perdição (Sam Mendes, 2002) - Michael Sullivan Jr. está curioso para saber sobre o trabalho do pai e acaba descobrindo que o mesmo é um soldado da máfia ao presenciá-lo cometer um crime junto com comparsas. O menino promete silêncio, mas a máfia executa sua mãe e irmão querendo eliminar qualquer testemunha. Agora, ele e o pai precisam escapar e ainda buscar vingança. A máfia chega a contratar um assassino psicopata para matar ambos, que fracassa em uma tentativa de assassinato em um hotel. Porém, no fim do filme, esse assassino retorna, de maneira meio que inesperada, matando o pai mas morrendo no processo. O problema aqui é que o assassino não é o principal inimigo. Ele não é o principal obstáculo, portanto não teria que ter esse papel no final. Houve uma completa quebra de clímax no que era um bom filme até então.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Não entendo certas coisas que as outras pessoas acham engraçadas



Laura Lucy Dias
21/1/2016
Olá povo lindo, hoje vamos falar sobre achar coisas engraçadas, suas implicações e possíveis níveis. Sou nada para ficar divagando aqui sobre isso, mas é claro que voltarei o tema para a linha dos produtos da Cultreco, que são as nossas tiras, vídeos (em breve), charges, e tudo o mais que der na telha.
Quero divagar sobre o assunto, utilizando de pesquisa e minha experiência pessoal com as situações engraçadas, engraçadas para mim, engraçadas para os outros e não para mim, engraçadas para a maioria e não para mim, engraçado para mim e não para a maioria, e assim vai até o 42 (ops, olha uma referência engraçada para mim e outros poucos).
Começando por algo que eu sentia mas não conseguia explicar e lendo esta reportagem na Hypescience consegui entender melhor, desejo citar o trecho que fala da risada e  o motivo de coisas serem engraçadas, para nós, humanos:

A risada proveniente do humor em humanos pode ser dividido em estágios. Quando estamos ouvindo uma piada a primeira parte do humor é o fim da piada, que é um final incongruente. Depois a mente começa a solucionar o problema para interpretar a incongruência ou surpresa. Finalmente o cérebro consegue estimar estes passo que juntos formam o humor e evocam a resposta da risada. (HYPESCIENCE, 2016)
Nós achamos engraçado aquilo que destoa de padrões (modelos, paradgmas), ou do que esperamos que aconteça, ou ainda, para tentar explicar “o que não é normal”. Na verdade, se posso acrescentar, o que achamos engraçado é o inesperado, muito mais do que aquilo que seja “estranho”, neste caso, para esclarecer o que acho, a incongruência vem no limiar de algo inesperado que pode ser estranho, destoante, fora do padrão, mas não necessariamente algo vulgar.







Chegamos no ponto. A vulgaridade da incongruência. Quanta palavra hard, não é? Isso é para dizer que há um nível[1] de vulgaridade da incongruência que pode chegar ao ridículo e eu não acho outro termo para substituir o inculto[2] de forma mais correta, pois de fato não é apenas falta de cultura como conhecimento, mas sim de cultura como relação com o outro sem se preocupar em tratar com chacota. É... o velho e muito utilizado “perco a amizade, mas não perco a piada!”, espera: COMO ASSIM?
Fazer chacota com o outro é a reação primária de comédia, utilizada por grandes mestres de uma maneira genial desde os primórdios da arte, mas muito mal utilizada hoje e por pesoas nada geniais... ou geniais do ponto de vista da perversidade. Isso era e é feito de uma maneira que leva o público a entender de maneiras diferentes os estereótipos diversos que são utilizados para regular (ditar regras) de como o público deve agir, como por exemplo: você prefere ser o bobo da corte ou o herói? O bobo da corte é um estereotipo do ridículo, e quando é utilizado busca mostrar para você como certas coisas não devem ser feitas para que você não seja intitulado de ridículo.
Os estereótipos[3] são difundidos de diversas maneiras em nossa sociedade e a comédia é o jeito mais eficaz de levar a todos as regras sociais da sua cultura. Quando você ridiculariza ou faz chacota de alguém está desempenhando um papel que é de dominação e pode fazer por diversos motivos, por isso é que acredito que o nível mais baixo da comédia é a chacota.
Nossos costumes culturais e sociais acabam nos dando pistas de como inferir certas coisas e erramos muito até aprendermos. Segundo Matthew Hurley,  parafraseado no artigo de Flávio Sallem, podemos citar integralmente:

[...] nosso cérebro toma conhecimento de nosso dia-a-dia via uma série de suposições intermináveis baseadas em informações incompletas e esparsas. Ou seja, o cérebro toma palpites do mundo, o que nos simplifica o mundo, nos dá insight (conhecimento de si mesmo) crítico das mentes dos outros, e canalizam nossas decisões. Mas erros acabam por ser inevitáveis, e mesmo uma minúscula suposição errada pode abrir portas para erros maiores e mais custosos.
Sendo assim, nós buscamos entender algo que é “estranho”, como o final inesperado da piada, e o processo cognitivo (que envolve nossas gamas de cunho social, emotivo, psicológico, de conhecimento, etc) dá-nos a sensação de engraçado para regulamentar o nosso comportamento e a nossa relação com as coisas que são diferentes do que esperamos, ou mais ou menos isso.
Quando alguém cai, li uma vez e não lembro onde, o impulso de rir é uma maneira biológica e impulsiva de avisar ao nosso grupo de que houve um acidente, porém, está tudo bem com o integrante do grupo. O que o cara da queda sente é outra coisa a se pesquisar.
Esse nível é quase animal, por isso entendo que é um nível inicial da relação da comédia e do engraçado. Quando a chacota vem penas pela chacota criamos uma comédia extremamente sem finalidade de regulamentação que não a nossa própria necessidade de atenção e falta de boas maneiras de lidar com as inferências que realizamos nos diversos campos de relações de nossas vidas. Fazer chacota de alguém pode acabar trazendo uma relação de poder entre as pessoas envolvidas, o que em geral necessita de plateia.
Falar de dominação e manipulação não é o tema principal aqui, mas de fato não pode passar despercebido, assim como qualquer coisa que o ser humano faz e acaba por transformar para se beneficiar com aquilo, seja de maneira perversa ou não.
Quando temos conhecimentos maiores do mundo em que a coisa engraçada (tira, charge, queda, filme, escolinha do professor Raimundo – vish – piada nerd, piada sobre física quântica e assim por diante) é gerada, seja como informação, reflexão, conhecimento de causa ou o que mais for necessário, aquilo que é engraçado e inesperado torna-se algo diferente, um nível diferente de humor. Se eu faço uma piada sobre a resposta para a pergunta primordial sobre a vida, o universo e tudo mais e você não entende, não irá encontrar o estranho, inferir e corrigir essa informação inesperada em sua cabeça, impedindo-o de rir no final.
Por isso, aquilo que eu não acho engraçado e você acha engraçado provém de experiências pessoais e de nossa individualidade (assim como nossa coletividade, certamente), e quanto menos achamos as coisas mais entendidas engraçadas pelo grupo, talvez tenhamos uma capacidade diferenciada de refletir sobre aquilo: piada racista, sexista, homofóbica e demais tipos que trazem a ridicularizarão para segregar e não para trazer reflexão, e que acaba alienando o grupo maior em prol do grupo menor (aquele que tem interesse de dominar e manipular para se beneficiar perversamente) e não gera reflexão, apenas regulamenta o comportamento de um grupo em relação ao outro grupo. Isso também é ferramenta do FASCISMO.
Falando do fascismo e da onda do fascismo que se utiliza da piada preconceituosa, podemos citar a Marcia Tiburi e a questão do empobrecimento e do autoritarismo. O autoritarismo se dá quando nós aceitamos uma verdade como nossa e a impomos ao outro, e a comédia facilita fazer com que mais pessoas agreguem a nossa verdade a si e a tomem como a sua e a reproduzam, a filósofa diz que a : “[...] Interrupção que se dá, por sua vez, pelo empobrecimento das condições nas quais o diálogo poderia acontecer [...]”. A questão do diálogo é a relação direta sobre receber uma mensagem e interagir com ela de maneira a refletir e devolver uma reflexão que não seja a de aceitação pura do que foi imposto, já o fascista interrompe o diálogo de forma autoritária e com imposição. Sendo assim, quando esses programas de televisão  de ridicularizarão (que ainda não foram citados aqui) chegam com uma afirmação e se dizem autoridade do assunto e apenas aceitamos aquilo por não sermos especialistas e nos sentirmos, geralmente, incapazes de refletir sobre aquilo  passamos a aceitar a incongruência de maneira dócil.
Veja o artigo sobre manipulação e dominação aqui, ele começa com a “Estratégia da diversão, não sei se o artigo é original dessa página, mas veja o que diz:

Elemento indispensável ao controle social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas mais importantes e das modificações decididas pelas elites políticas e econômicas, graças a uma enxurrada ininterrupta de distrações e informações insignificantes. Se você observar bem a maior emissora de TV do Brasil cada vez mais adota um tom divertido em praticamente todos os seus programas, induzindo a população a encarar a realidade como algo lúdico.

É uma maneira de infantilizar o público, visto que o lúdico é mais fácil de aceitar do que a verdade e os acontecimentos crus. O empobrecimento de que fala a Marcia Tiburi mostra que “Fechado em si mesmo, o fascista não pode perceber o ‘comum’ que há entre ele e o outro, entre ‘eu e tu’. Ele não forma mental e emocionalmente a noção do comum, por que para que esta noção se estabeleça, dependemos de algo que se estabelece como uma abertura ao outro.”. Esses programas de humor que não trazem nada além de “comédia por comédia” não te englobam no comum, te individualiza, segrega você do outro e diz que você não pode refletir sobre um humor mais rico.
Não achar graça no humor feito pelo humor pode ser um passo para a sua libertação da alienação segregadora, da manipulação de opinião e conhecimento e ainda permite que se divirta com coisas mais “sérias” como a literatura de Machado de Assis, que é extremamente divertida e ácida, INCONGRUENTE ao extremo.
Ah, acredita que Edgar Allan Poe é engraçado? Não no sentido comum da piada, mas num nível muito sutil entre a literatura e a relação do leitor com ela. Você pode enxergar isso lendo o Ensaio do Poe sobre a sua produção do poema “O corvo”, a maneira que ele divaga e fala de sua composição é leve e demonstra que o medo não é o objetivo principal da execução de seu trabalho, ele se divertiu muito ao escrever cada uma de sua obra. Acho que podemos dizer que o absurdo é a principal incongruência na obra de Poe, e o como ele nos convence sobre ela e a aceitá-la.
Acredito que Machado também é engraçado. Se você ainda não leu “O Alienista”, “A cartomante”, “Memórias póstumas de Bras Cubas”, “A igreja do diabo” entre outros, desconhece o contexto histórico de produção do autor e ainda não entende muito do que ele possa falar, achará enfadonho. Mas uma boa ajuda é se importar mais com o comum, buscar enriquecer a sua relação com o incongruente e ler algumas análises de alguns leitores para permear a sua reflexão e leitura. Eu sempre dou muitas risadas lendo Machado, assim como outras emoções que ele causa.
Bem, sobre o humor da Cultreco: já ouvi dos meus leitores betas (muitos dos quais assistem Pânico na TV) que é um humor muito nerd, que poucas pessoas entenderão as referências, muitas vezes não causa a reação da risada imediata, levando a pensar um pouco sobre ele, e até me disseram “Coitada” sobre a tira da Cassia Eller e o David Bowie, mas aí está a minha explicação, a incongruência e seu nível.
OS: Eu amo a Cassia Eller, entendo que sua música em questão é sobre ser você mesmo, aí é que está a incongruência.


[1]  Estou chamando assim por falta de conhecimentos aprofundados, meu interesse é despertar o seu interesse e reflexão, o aprofundamento e especialização aqui fica para outro momento da minha parte, e da sua?
[2] Pobreza de conhecimentos, não burro, hein?!
[3] Pesquise sobre Carl Jung, outros conceitos que podem ajudar são: inconsciente coletivo e máscaras de Jung.